O abacaxi é o fruto do abacaxizeiro (Ananas comosus) uma planta de origem americana hoje cultivada em todo o mundo. Seu nome científico, assim como um de seus sinônimos populares, ananás, vem de línguas indígenas da América Central e foi incorporado ao tupi, querendo dizer “fruta excelente”, de “a” = “fruta” e “nanás” = “muito boa”. Ananas comosus em latim quer dizer “ananás com gomos”. Pertence à família das bromeliáceas, a mesma das bromélias de floricultura (aquelas plantas em forma de roseta com “flores” coloridas no centro) e dos caraguatás (usados em medicina caseira para cortar a tosse – veja boxe no final).
Estudos genéticos de populações vegetais indicam que o abacaxi é nativo da região Sul do Brasil e do Paraguai, de onde foi se espalhando durante milênios até as florestas da América Central, como as do Panamá. A disseminação do abacate acompanhou a da Mata Atlântica, que cobria todo o litoral do subcontinente centro-sul-americano.
Os primeiros relatos de europeus sobre a fruta datam de 1493, quando marinheiros de Colombo a experimentaram nas ilhas de Guadalupe. Jean de Lery, capelão dos invasores franceses liderados por Nicolau Villegagnon, que se estabeleceram no Rio de Janeiro de 1555 a 1560, também escreveu sobre o abacaxi: “É o fruto mais saboroso da América!”
Nos séculos seguintes, há poucas referências ao fruto, pois as frutas em geral eram desprezadas pelos portugueses, sendo consideradas “comida de índio”. Daí vem a expressão “por fruta”, significando muito raramente. Era comum nas cidades a preferência por frutas trazidas pelos europeus, como a laranja e a manga, enquanto as frutas nativas eram quase sempre desprezadas.
Uma exceção foi a princesa Isabel, que tinha como fruta preferida a banana-de-macaco, fruto de um tipo gigante de costela-de-adão, a Monstera deliciosa, que é saboroso, mas hoje já não mais consumido nem pelos índios.
O abacaxi só volta a ser comentado e elogiado a partir do final do século 19, quando se disseminam suas virtudes medicinais. Antes era considerado maligno e venenoso em regiões da Africa e do Oriente onde não era conhecido e começou a ser introduzido sem êxito por causa da má-fama. Diziam na Africa, por exemplo, que tornava as cobras mais venenosas, o que não passa de lenda sem fundamento.
Tradição milenar
Graças a suas enzimas (bromelina, principalmente, que dissolve muco e moléculas de gordura), vitaminas (A, B e C, principalmente) e oligoelementos (traços de sais minerais como cobre e manganês, veja boxe) o fruto do abacaxi é digestivo, antiinflamatório e antibiótico, alem de cicatrizante de tecidos. O botânico Pio Corrêa fez um detalhado elenco das principais qualidades tradicionalmente atribuídas ao abacaxi. A primeira dessas virtudes está o fato de ser uma fruta digestiva, por causa das enzimas que decompõe os alimentos. Corrêa também explica que o suco e as compressas da fruta têm ação depurativa do sangue, fazendo estourar furúnculos, por afinar os tecidos que os revestem.
O abacaxi também é usado pelos índios há milênios para combater a tosse e curar a dor de garganta, por dissolver muco contaminado, limpando as mucosas. Essa propriedade enzimática de dissolver muco explica a ação do abacaxi como expectorante, nos casos de asma ou bronquite. O consumo dessa fruta também tonifica os intestinos, pois também dissolve muco contaminado em suas mucosas, eliminando micróbios e vermes.
Pio Corrêa explica que os índios usavam ainda o suco do fruto ainda verde como vermífugo e antibiótico das vias urinárias. Esse suco fermentado era indicado para ser tomado pela manhã em jejum para que os guerreiros restaurassem suas forças. Na verdade ele facilita a absorção dos alimentos e sua rápida transformação em energia.
Junto com outros ingredientes que o abacaxi contém em pequenas quantidades, a bromelina é absorvida por nossas vias digestivas e entra no sangue, atuando como antiinflamatória, o que ajuda a desobstruir a circulação em caso de edema ou contusão. Segundo pesquisadores americanos, a bromelina teria a propriedade de quebrar, dentro das artérias, as placas de fibrinas, que são um tipo de proteínas que constituem os coágulos sanguíneos.
Essas propriedades antiinflamatórias são responsáveis pela ação do fruto e de seu suco no tratamento de muitos casos de artrite e reumatismo. É de fato eficaz no combate às dores nas juntas (artrite).
O poder das enzimas
Como os oligoelementos e as vitaminas, as enzimas são substâncias que agem em pequena quantidade e apressam as reações químicas do organismo, rompendo moléculas maiores e facilitando sua decomposição. Sem as enzimas, nós não sobreviveríamos, porque não conseguiríamos digerir os alimentos. Nosso próprio corpo produz enzimas, como a ptialina presente na saliva, que ajuda a fazer o bolo alimentar.

Mas as frutas também são ricas em enzimas, principalmente o abacaxi. Além de quebrarem moléculas complexas, como as das proteínas e das gorduras, as enzimas do abacaxi, principalmente as bromelinas, funcionam como agentes de limpeza do organismo, dissolvendo o muco e as proteínas e as gorduras depositadas no revestimento de mucosas e artérias. A esse muco ou gordura podem estar aderidos micróbios, como bactérias e vírus (que tem suas paredes celulares dissolvidas pelas propriedades proteolíticas da bromelina), e até vermes. A bromelina dissolve esse muco do revestimento das mucosas, facilitando a cicatrização dos tecidos inflamados. É fácil constatar esse poder dissolvente da bromelina despejando suco de abacaxi em gelatina animal, o que a faz derreter.
As bromelinas é usada pela indústria farmacêutica para fazer xaropes e remédios digestivos. Também são usadas na indústria da cerveja, para classificar a qualidade da bebida.
Outras frutas ricas em enzimas são o mamão (o leite branco que sai das cascas é constituído principalmente por papaína, uma enzima que amacia a carne e dissolve até verrugas da pele), as uvas, o abacate, o figo e a banana. Outras plantas que contêm enzimas úteis: gengibre, couve, babosa. Também possuem enzimas o mel e o azeite de oliva de primeiras extrações.
O que dá o sabor característico ao abacaxi, entretanto, é o ácido que ele contém (87% de acido cítrico e 13% de ácido málico). Essa acidez pode causar inconvenientes em pessoas que estejam em crise de herpes labial, que nessas fases devem evitar o abacaxi. Essa fruta deve ainda ser evitada nas fases agudas de úlcera e gastrite. Também contribui para o sabor ácido do fruto a vitamina C (todos os frutos muito ricos em vitamina C têm sabor ácido porque ela é um tipo de ácido, chamado, aliás, ácido ascórbico).
Curiosamente a vitamina C encontra-se em maior quantidade no fruto quando ele ainda está muito verde e não pode ser consumido por causa do sabor extremamente ácido e de outro componente químico que o deixa amargo e adstringente: o tanino. É o tanino que vira açúcar quando o fruto amadurece. Conforme ocorre o amadurecimento, o tanino desaparece e o teor de vitamina C diminui, mas mesmo assim continua completamente satisfatório para consumo. Constatou-se, por exemplo, que os abacaxis da Guiné têm teor de vitamina C de 8 mg para cada 100 g de polpa, enquanto que as frutas verdes, 15 dias antes de sua maturação chegam a ter 20 mg de vitamina C.
Aprenda a cultivar
As variedades de abacaxi mais cultivadas comercialmente são a pérola ou pernambuco, que tem forma cônica, polpa amarelo-clara, folhas com espinho, sendo mais doce, a smooth cayenne, que tem forma cilíndrica, folhas quase sem espinhos, polpa amarela, mais ácida, com peso médio de 2 quilos. Há também variedades sem espinhos na coroa, como a perolera, originária da Venezuela e da Colômbia, muito resistente a uma praga chamada fulariose (infecção por fungo que estraga o fruto), e a variedade BGA-6, muito doce, produzida pela Embrapa em Cruz das Almas, Bahia.
Pode ser cultivado a partir da coroa do fruto, ou a partir de mudas que surgem na base da planta. Os cabos que a unem à base têm de ter mais de 20 centímetros para serem cortados. Deve ser plantado na terra, no jardim ou no pomar, em local bem ensolarado. Precisa de solo rico e adubo orgânico. Reage bem à pulverização foliar.
Floresce quando você quiser.

O carbureto de cálcio diluído deve ser colocado no centro da roseta do pé do abacaxi no fim da tarde porque os poros das folhas dessa planta só se abrem à noite, permitindo a absorção de substâncias. Se for colocado durante o dia, o carbureto não faz efeito.
A frutificação em época seca traz a vantagem de os frutos não se contaminarem com fungos (fulariose), que proliferam com as chuvas. Lavouras comerciais usam um produto químico chamado Ethrel, que é pulverizado sobre a planta toda.
Atenção, praticantes de musculação: o abacaxi tem todos os aminoácidos!
As enzimas do abacaxi são constituídas em parte por aminoácidos. Aliás o abacaxi é uma das frutas mais ricas em aminoácidos que se pode encontrar. É uma verdadeira farmácia. E os praticantes de musculação conhecem a importância dos aminoácidos, pois qualquer professor de academia explica que são eles que ajudam a formar massa muscular.
Aminoácidos são moléculas de carbono que entram na composição das proteínas, as estruturas principais de todas as nossas células, dos neurônios do sistema nervoso até as unhas e cabelos. Muitos aminoácidos são sintetizados pelo nosso próprio corpo e por isso são chamados de não-essenciais, isto é, não é preciso buscá-los nos alimentos, embora os alimentos possam dar uma ajuda: alanina, asparagina, cisteína, glicina, glutamina, histidina, prolina, tirosina, ácido aspártico e ácido glutâmico. Outros, entretanto, precisam ser ingeridos nos alimentos e por isso são chamados de essenciais: arginina, fenilalanina, isoleucina, leucina, lisina, metionina, serina, treonina, triptofano e valina.
E agora vamos ao abacaxi, que fornece uma lista de aminoácidos de tirar o chapéu: asparagina, glutamina, serina, histidina, glicina, treosina, alanina, arginina, tirosina, cisteína, valina, metionina, triptofano, feninalanina, isoleucina, leucina, lisina e prolina.

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